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Arquitecto Carlos Almeida Marques

Carlos Almeida Marques é arquitecto e tem desenvolvido inúmeros trabalhos regularmente com a Viroc, como a escola Secundária Júlio Dantas (http://www.viroc.pt/content.aspx?menuid=18&eid=2790).

Em 2015, lançou um livro em parceria com a Viroc, “Carlos Almeida Marques Arquitectura”. Neste momento, está a construir uma Escola nos Açores com Viroc. “É uma obra pública que obrigou a fazer um plano de envolvência para resolver o problema de enquadramento urbano.”

Arquiteto em 1982 da Faculdade de Arquitetura de Lisboa, mestre em Planejamento Regional e Urbano (UTL, 2004) e doutoramento em 2010, em Ciências Sociais e Administração Pública, pelo ISCSP-UL, onde é Investigador. Concluio o segundo Doutoramento Europeu em Planeamento Urbano pelo Instituto Universitário de Ciencias Ambientales da Universidad Complutense de Madrid.

A sua actividade profissional tem sido especialmente dirigida à concepção de edifícios públicos e coordenação de planos municipais de ordenamento do território. Paralelamente investiga nas áreas teóricas do urbanismo e planeamento cultural urbano, com publicações e conferências em Portugal e no estrangeiro.

Foi neste sentido, que o Arquiteto Carlos Almeida Marques aceitou conversar com a Viroc.

Viroc: Pode-nos falar um pouco do seu percurso profissional vasto e com projecção internacional?

Arq. Carlos Almeida Marques: Em 82, quando saí (da licenciatura) foi uma altura crítica, estávamos a viver um momento exactamente igual, o país estava em recessão. Foi uma época um pouco complexa, mas foi-me sempre possível encontrar encomendas e solicitações, obras públicas normalmente, igrejas, turismo, escolas, bibliotecas, …

O projecto público, em si, é um projecto exigente, que nos obriga a preparar, tem de acompanhar programas muito elaborados que são avaliados e criticados pelo público. Mas o objecto público permite experimentalismo, contudo obriga a um acompanhamento e trabalho de investigação o mais actualizado possível, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista da estética. Paralelamente sempre trabalhei em urbanismo.

Tenho, também, publicado e dado conferências sobre temas da habitação. Portanto, o meu percurso é um pouco de evoluir sobre o contínuo, contínuo das solicitações que nos vão fazendo permanentemente e dos programas, mas sempre baseado numa relação com a academia. Ambas se complementam. Para mim não há contradição entre teoria e prática.

Viroc: No conjunto dos seus projectos, qual é o traço ou característica que melhor o caracteriza?

Arq. Carlos Almeida Marques: Há uma que tenho vindo a trabalhar desde há vários anos, que é tentar conceber o vão, um espaço de transparência, não como uma simples superfície entre o interior e o exterior, mas como parte integrante de um volume. É geralmente posto em confronto com a massa construída, daí usar o betão em contraste com a fragilidade aparente do vidro.

Outra ideia que é uma constante são os percursos interiores, eu entendo que o corredor, as escadas, os átrios são os espaços mais dinâmicos que há, e ganham potencialidades que normalmente o “espaço estático” não tem. O percurso deve ser muito trabalhado em benefício dos utentes. O espaço induz a comportamentos dependendo de como foi feito, o uso que é dado, o modo como é trabalhado e tratado. A própria arquitectura deve ajudar ao que se vai lá praticar. Para além disso, deve existir compromisso entre o urbano e o arquitectónico. Um investimento de maior relevância para a cidade tem de estar virado para a cidade e a cidade tem de usufruir dele.

Comtudo não tenho de ser obsessivo com teorias e com conceitos. Temos que evoluir e adaptar as nossas próprias lógicas prévias ou previamente estabelecidas para novas que julgamos serem mais adequadas para cada projecto.

Viroc: Hoje em dia, o greenbuilding tem um papel muito importante na arquitectura. Até que ponto, tem sido uma preocupação constante nos seus projectos?

Arq. Carlos Almeida Marques: É uma preocupação desde há largo tempo. Eu sou fortemente apologista de uma intervenção passiva nas obras e não tanto de intervenções ativas. Deveria haver, e tenho conseguido, uma aposta muito grande nas questões da energia passivas, onde a própria arquitectura funciona como isolante térmico e acústico com qualidade, custos aceitáveis e conforto visual agregado.

Quando optámos por Viroc, um dos conceitos que esteve e está presente é a desconstrução. É um dos exemplos da ecologia pensada a médio/longo prazo, isto é, pensar no edifício, na sua fase de construção e na sua própria fase de desconstrução, se tiver de alterar ou reabilitar.

Há uma ideia, que normalmente o greenbuilding é só isolamento térmico. A ideia de edifício sustentado tem de ser mais ampla, do que exclusivamente relacionada com isolamentos, mais com poupança de energia. Julgo que é importante introduzir outros factores, desconstrução ou maleabilidade do edifício, isto é, que seja capaz de se adaptar ao uso, ao tempo e à ecologia do habitat. Greenbuilding é um conceito interessante de se discutir também no urbanismo. No campo da ecologia urbana, o que a cidade cria e faz, induz ao comportamento humano, para que adopte e aceite determinado tipo de pressupostos e comportamentos.

Viroc: Tem tido uma relação muito próxima com Viroc nos seus projectos. Em que sentido o produto tem sido uma mais-valia para os seus projectos?

Arq. Carlos Almeida Marques: Só uso Viroc no interior, não uso no exterior. Há um uso fortemente relacionado com essa necessidade de ter uma parede que salvaguarda as necessidades de isolamento acústico, de corte térmico e de segurança. A relação com o Viroc surge fortemente ligada a esta necessidade de desconstruir, ter acesso à infra-estrutura com relativa facilidade, mantendo todos os pressupostos que uma parede normal deveria ter, com uma relação preço/qualidade e facilidade de aplicação.

Há que admitir algumas fragilidades também do material, há coisas que tem de evoluir. Por exemplo, o Viroc Branco bruto, quando envernizado é alterado completamente. O betão envernizado altera-se completamente, perde metade da expressão e da beleza, e é uma pena que ainda não tenha sido estudado, ao momento, um material com estabilidade. Esse é um dos pontos a rever, até para valorizar a própria base do produto.

A minha relação com o Viroc é estritamente funcional, por outro lado, ao introduzirmos painéis nas paredes com um grau de resistência significativo, há uma certa animação no espaço. Incute um certo ritmo, uma certa variação na expressão da leitura das paredes interiores e isso é enriquecedor. Até agora, a utilização de Viroc tem sido de longe mais positiva do que os problemas que têm vindo a ser detectados. O resultado é positivo e bastante bem aceite.

Viroc: Para finalizar, na sua opinião qual será o futuro da arquitectura no contexto nacional português?

Arq. Carlos Almeida Marques: Isso é difícil de responder, há aqui 2 coisas que se cruzam.

Devido ao boom do imobiliário, pessoas que recentemente concluiram o curso, pensaram que ser arquitecto significaria uma vida fácil, de enriquecimento fácil e de projeção pessoal, o que não o é de todo. Essa ilusão caiu e ainda bem pois não era sustentável. Depois a tendência será, provavelmente não tanto projectar novas construções mas reabilitação, reabilitar o que existe.

A outra questão é a própria arquitectura, o que vai ser a arquitectura daqui a 10, 20 ou 30 anos? O que terá de evoluir será a tecnologia agregada à arquitectura. O que me causa espanto é que estejamos a construir no séc. XXI, como construíamos no séc. XIX, praticamente com os mesmos materiais. A aposta em materiais, como Viroc, será o futuro da arquitectura. Evoluir nos materiais que vamos aplicar no futuro, para obtermos resultados mais actualizados e adaptados à nossa ecologia sustentável de viver.

 

A ver: “Arquitetura em Estado Crítico”, Congresso Internacional: “O que é uma escola de PROJETO na contemporaneidade / Questões de ensino e crítica do conhecimento em Arquitetura e Urbanismo”, FAU Mackenzie, São Paulo, 9 a 11 de Setembro 2013.